Estive recentemente em Nova York. Cidade única em muitas aspectos, uma delas o trânsito caótico. Difere das demais pela proporção novaiorquina, sempre exagerada. Muito tudo e muito de tudo, inclusive de sínteses de nossos dias.

Na saída para a cidade, vi, pela janela do carro, uma placa famigerada, daquelas bem acessíveis e que saltam na sua frente, que dizia: “Stop the pain!”. “Já vi várias dessas”, pensei. “Lembrei onde: em Malvern, cidadezinha do Alabama onde minha filha mais velha concluiu o high-school!”.

A relação entre as duas cidades pode não parecer clara, mas é: ambas são habitadas por homens de uma era chamada Modernidade. São os mesmos sujeitos, aliás, que habitam Frankfurt, Madri, Paris e Atlanta. Miami, Viena, Caracas e São Paulo. Por sorte, conheço todas.

Grande ou pequena, compartilham de sistemas globalizados e, mais que isso, são produto (somos) de uma história que, por sinal, continua sendo escrita. Sabe aquela placa? Pois é, mais um símbolo da estreita ligação entre o aqui e o ali.

Explico: o sofrimento que a placa se refere é uma das grandes características da Idade Moderna, seja em que língua isto for dito, pelo fato de ela reiteradamente fracassar em oferecer uma convivência inevitável da natureza humana com algo que foge da crucial missão civilizadora.

Me refiro ao grande estímulo para que satisfaçamos cada vez mais vontades (elas não param de crescer) e que cada vez mais nos empenhemos em dominar as coisas ao mesmo tempo que somos, inegavelmente, seres ambíguos, incompletos. Isso faz nossos dias ficarem expostos ao sofrimento.

Por isso, a placa, que por sinal pretendia arrebanhar fiéis às igrejas, conclama: “Stop the pain!”. Oferta tentadora para absolutamente todos os seres vivos do planeta. Embora a solução seja relativa (depende de cada um), a verdade é absoluta: todos querem para de sofrer.

Mais que um dilema, esta roda que gira sem parar produz um regime de vida que podemos chamar de traumático. Isso, a vida hoje é essencialmente um trauma. Não é simples reduzir a vida em um texto, mas o fato é que tanto a razão quanto a língua fracassaram em tentar elevar nosso nível.

Sendo assim, deixamos lá atrás o que poderíamos chamar de “eventos traumáticos” e hoje nos deparamos com “traumas acumulados” no seio da humanidade. Nos resta pouco, mas, ao fim de tudo, sempre teremos nossa alma, ou algo que equivalha a isso, por trás de nossos tecidos.

Por isso, neste momento de impasse, deve surgir um novo sujeito: o sujeito reflexivo. Dele se exigirá a capacidade de refazer-se e de refazer, silenciosa e ordenadamente, os passos que lhe formaram.

Nos próximos textos, quero propor temas para que possamos refletir e, quem sabe, nos levar a adotar uma visão mais inteligente sobre nós mesmos. Aí estará, provavelmente, o verdadeiro fim do sofrimento.

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