Diferenças entre os estilos de comunicação dos brasileiros e americanos.

Em sua primeira viagem aos Estados Unidos, uma amiga comentou que o agente da imigração americana havia sido grosso com ela. Ela reclamava da maneira com que o funcionário respondeu a sua pergunta: com poucas palavras e sem um sorriso no rosto. Tentei explicar que a função do funcionário era executar uma tarefa e não ser “simpático”. “Mas não custava nada ele sorrir, certo?” – disse minha amiga, contrariada.  “Não sorrir, não é necessariamente uma grosseria”- respondi. Entretanto, o estilo direto e objetivo do americano pode parecer “grosseiro” aos olhos dos brasileiros, mais preocupados em criar relacionamentos e manter a harmonia.

Talvez uma das diferenças culturais mais gritantes entre brasileiros e norte-americanos seja o estilo de comunicação de cada um. Diferenças na maneira como as pessoas se comunicam afetam não apenas as atividades do dia a dia, mas também os relacionamentos de negócios. O americano é objetivo e assertivo. Já o brasileiro, prioriza o relacionamento e tem dificuldade em ser direto e dizer não. Na maioria das vezes, o brasileiro se estica em desculpas e explicações, pois acredita que estas são essenciais para manter-se um bom relacionamento. Porém, para o americano, o foco não é o relacionamento e sim o objetivo final a ser atingido.

O antropólogo e pesquisador social Edward T. Hall desenvolveu um modelo para explicar como a percepção de contexto e a administração do tempo e espaço afetam a comunicação intercultural. Hall definiu dois tipos básicos de cultura: culturas de “alto contexto” e culturas de “baixo contexto”. Segundo o modelo de Hall, culturas de alto contexto caracterizam-se pela presença de elementos contextuais (como gestos e status dos interlocutores) que ajudam as pessoas a entenderem as regras. Nesse tipo de cultura, o contexto tem maior importância do que as palavras e grande parte da informação está implícita; portanto, muito pouca informação é codificada na mensagem verbal. Como se acredita que exista informação suficiente disponível no ambiente, considera-se desnecessário afirmar verbalmente o que parece óbvio.

Já as culturas de baixo contexto, baseiam a comunicação na linguagem verbal, dando grande importância à lógica e racionalidade. Nesse tipo de cultura, a maior parte da informação deve estar na mensagem verbal, de forma a compensar o que não se depreende do contexto. Além disso, existe uma separação entre o tema e as pessoas envolvidas na comunicação. Culturas de baixo contexto tendem a ignorar os aspectos humanos, na medida em que isolam as pessoas e priorizam as tarefas em detrimento das mesmas. Não é necessário dizer que o Brasil é considerado um país cuja cultura é de “alto contexto”, enquanto os EUA se enquadram na categoria “baixo contexto”.

Em culturas de alto contexto, a informação é menos precisa e mais ambígua. Ao invés de usarem palavras diretas e assertivas, as pessoas tendem a usar palavras ambíguas e mensagens indiretas a fim de “inferir” aquilo que querem dizer. Culturas de alto contexto como a brasileira, tendem a demorar muito para chegar ao ponto e evitam abordar assuntos desagradáveis, já que estes podem ser considerados constrangedores.

Entretanto, em culturas individualistas como a americana, falar o que vem à cabeça é uma virtude, dizer a verdade a respeito de como alguém se sente é uma característica de uma pessoa sincera e honesta e confrontação pode ser algo saudável. Para a mentalidade racional do americano, a crítica é direcionada ao trabalho em si e não à pessoa que o executou. Já o brasileiro, não consegue separar tão facilmente o executor do trabalho executado e, na maioria das vezes, as críticas acabam sendo vistas como algo pessoal.

Embora tendam a exibir emoções, os norte-americanos conseguem separá-las das decisões “objetivas” e “racionais” contidas nas relações de negócios. Já os brasileiros tem uma certa necessidade de estabelecer um mínimo de intimidade, buscando relacionamentos mais próximos, mesmo nas relações profissionais. Desta forma, é provável que os brasileiros se ressintam da falta de emoção presente no discurso dos norte-americanos, interpretando-a como indiferença, enquanto a presença de emoção no discurso dos brasileiros é encarada como falta de profissionalismo pelos norte-americanos.

Diferenças culturais podem gerar muitas confusões e frustrações no âmbito profissional. Um exemplo são os almoços de negócios, que no Brasil servem para iniciar um relacionamento. Muitas vezes, o negócio em si é discutido de forma suave durante a sobremesa. Mas o importante, é que o relacionamento foi iniciado. Quando os americanos vão ao Brasil a negócios, querem falar de trabalho antes do couvert. Quando não conseguem isso, acham que “perderam o almoço”. Por outro lado, quando o americano responde a uma pergunta de forma objetiva ou faz uma crítica direta a uma proposta de negócio, o cliente brasileiro pode levar para o lado pessoal e concluir que o “gringo” não vai com a cara dele.

Cada cultura tem seus pontos positivos e negativos. A objetividade e racionalidade dos americanos é uma grande vantagem na produtividade e economia de tempo. Já os brasileiros conseguem lidar melhor com situações ambíguas e de mudanças constantes, pois tem mais flexibilidade e não enxergam as coisas tão “preto e branco”. Em nossa sociedade global, saber identificar e navegar pelas diferenças culturais é uma habilidade cada vez mais importante, afinal…não é nada pessoal!

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