O que os americanos podem nos ensinar sobre cidadania

Nos meus anos rebeldes de adolescente, costumava proferir com o orgulho de quem pouco sabe sobre a vida que “regras existem para serem quebradas.” Quando me mudei para os Estados Unidos, ainda como uma jovem estudante, estranhei o fato dos americanos seguirem regras e leis de forma tão obediente e mecânica. Desde os pequenos detalhes, como atravessar a rua na faixa de pedestre e esperar pacientemente sua vez na fila, o americano faz a sua parte para garantir a ordem e o bom funcionamento da sociedade. Claro que há quem cultive a transgressão, mas desrespeitar as normas está longe de ser um hábito dos americanos.

Casei, tive filhos e, aos poucos, fui me acostumando a viver em uma sociedade ditada por regras e leis. Até que um dia, a minha filha – que na época estava no kindergarten – chegou em casa falando sobre regras. “Respect is an important rule” – disse ela, com ares de professora, ao irmão caçula que insistia em cortar a conversa que ela mantinha com o pai. Foi então que eu percebi que um dos pilares da sociedade americana é a educação social que eles recebem desde pequenos. O americano aprende, desde cedo, que cidadania inclui não apenas direitos, mas também deveres. Aprendem, em casa e na escola, que para o bom funcionamento da sociedade é necessário que haja regras bem definidas e, principalmente, que cada um cumpra com a sua parte.

Diferente do americano, o brasileiro faz de tudo para burlar a lei e tirar vantagem de uma situação e, ao mesmo tempo, espera que os outros cumpram as leis e comportem-se de forma honesta, quando assim lhe é conveniente. O brasileiro reclama dos políticos que roubam cofres públicos e enfiam dinheiro em suas cuecas de forma descarada. Entretanto, esse mesmo cidadão fura a fila do cinema, ultrapassa pela direita, sonega imposto, dirige no acostamento e suborna o guarda de trânsito sem o menor constrangimento. Omisso e absorto em si mesmo, o brasileiro usa do famigerado jeitinho para tirar proveito próprio de uma situação em detrimento de outra pessoa.

Enquanto o brasileiro não entender que uma nação constrói-se com educação e cidadania, seremos sempre o país do futuro. Um futuro que nunca chega. Para que uma sociedade seja desenvolvida, com instituições sólidas e que funcionem de forma eficaz, é necessário haver regras claras e bem definidas. Porém, é essencial que estas regras sejam cumpridas por todos e que haja consequências para aqueles que as transgridam. Pois, em uma cidadania os direitos de um indivíduo são garantidos a partir do cumprimento dos deveres dos demais componentes da sociedade.

Recentemente, o Brasil foi testemunha do lado cruel do nosso “jeitinho”.  Uma das maiores tragédias da história brasileira, que vitimou, até agora, 237 jovens ocorreu devido à imprudência, negligência, ganância e uma sucessão de equívocos e ajeitamentos brasileiros. Entre várias irregularidades, peritos apontaram a espuma utilizada no revestimento acústico da boate Kiss, em Santa Maria (RS), como um dos pontos fundamentais para a tragédia. Foi o jeitinho brasileiro de querer tirar vantagem que levou os donos da boate a comprarem espuma de borracha (material inflamável) em uma loja de colchões da cidade, optando por uma solução mais fácil e barata ao invés de fazer um isolamento acústico adequado. Seguir a regra iria requerer um investimento maior por parte dos donos da boate, mas garantiria a segurança de seus clientes.

Jovens inocentes de Santa Maria pagaram o preço final de nossa desonestidade e irresponsabilidade. Enquanto formos coniventes com pequenos atos de corrupção e seguirmos com nossos comportamentos egoístas, inconsequentes e irresponsáveis, viveremos consternado em lágrimas e seremos sempre o país do futuro que nunca chega. Hora de aprendermos um pouco sobre o valor da cidadania.

 

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1 Comentário em "O Lado Cruel do Jeitinho Brasileiro"

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gerson
Visitante
Olá, Parabéns,achei fantástico e coerente seu artigo,acompanhei algumas matérias a respeito da tragédia em Santa Maria e como bem tu disse,”o jeitinho brasileiro” prevaleceu,tanto a priori como a posteriori,já que o estado em desespero p/não saber lidar com uma situação desse tamanho,apenas procura um “porquinho” para sacrificar e ao que parece,daqui alguns meses as coisas voltarão ao normal, pois infelizmente nossa educação e cultura não nos ensina o valor dos bens em comum. O nosso problema é macro,assustador e covarde,vivemos em uma terra s/lei onde hipocrisia, pseudo movimentos culturais são dominantes e o que mais assusta,não há nada sendo feito… Read more »
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