Como muitos já sabem, os Estados Unidos é um dos poucos países no mundo onde o futebol (ou soccer como é chamado aqui) não é muito popular.  Isso vem mudando aos poucos e houve algum progresso nos últimos anos.  Mas mesmo assim, na lista de preferência dos americanos, muitos esportes vêm acima do soccer: Football (o americano, é lógico), Softball, Basquete, e até mesmo Hockey no gêlo são mais populares do que o nosso futebol.

Existe um fato bastante curioso quanto à popularidade do futebol nos Estados Unidos.  Entre as crianças antes da adolescência, o futebol é o esporte mais praticado.  Existe até um termo comumente usado para se referir às mães que se lotam as estradas e ruas em suas vans levando seus filhos e filhas para os jogos de futebol: “soccer moms”.   As práticas e jogos são muito bem organizados, com times e ligas formadas, e pequenas crianças uniformizadas, e com os últimos modelos de chuteiras caríssimas como se estivessem se preparando para uma grande competição de repercussão internacional.  Campos super bem cuidados, acomodam com conforto a grande audiência de pais que, apesar de não entenderem nada sobre o jogo, se entusiasmam quando os filhos dão um chutão na bola, mesmo que a bola caia no pé dos adversários.  Veja bem, o único ponto de referência deles é o futebol americano, onde o objetivo é mover a bola o mais longe possível para o campo dos adversários. 

A preparação e organização é realmente um espetáculo.  O que acontece dentro do campo é uma outra estória.  Comparamos tudo isso com o nosso “futebol de várzea” onde nossos futuros craques começam suas inusitadas carreiras muitas vezes jogando descalços em um campo de chão de barro, com gols feitos de pedaços tortos de madeira.  Os Estados Unidos vieram a dominar muitos esportes olímpicos através de investimentos pesados e uma infra-estrutura fantástica nas escolas.  Mas não conseguiram duplicar este sucesso no futebol.  Enquanto que o Brasil, com pouquíssimos investimentos e uma infra-estrutura precária, tem uma verdadeira fábrica de craques.  Como pode ser isso?  Minha teoria: futebol é mais arte do que esporte.

Mas voltamos ao assunto principal do artigo.  Como é a experiência de vivenciar a Copa do Mundo nos Estados Unidos?  Eu posso lhe dizer o seguinte: houve bastante progresso nos últimos 20 anos.  Hoje em dia pelo menos quando se fala de Copa do Mundo a maioria das pessoas sabe ao que estamos nos referindo, e o evento é comentado durante conversas descontraídas no trabalho.  Os noticiários comentam mais sobre o evento.  A página de esportes do jornal mais popular do país, o USA Today, fala sobre os jogos, mas ainda é uma pequena parte da cobertura que dá clara preferência aos outros esportes.  Os principais canais mostram os jogos dos Estados Unidos, e para quem tem TV a cabo, todos os jogos podem ser vistos na ESPN.

Mas não foi sempre assim.  A minha primeira Copa do Mundo nos Estados Unidos foi em 1986.  Eu estava na parte norte da região conhecida como “Upper Midwest”, e devido à ausência de estrangeiros nesta área, quase não se falava de futebol.  Eu ficava abismado de como o maior evento esportivo do mundo era completamente ignorado.  Quase nada nos jornais.  Muito pouco na TV.

O pior de tudo aconteceu naquele indescritível dia quando o Brasil foi eliminado pela França.  Eu estava em uma pequena cidade e não tinha acesso à TV a cabo.  Um dos canais principais americanos estava anunciando que iriam transmitir o jogo ao vivo.  Eu fiquei o dia inteiro ansioso, me preparando mentalmente para o jogo.  Não programei nada para esse dia, e fiquei com os olhos grudados na TV a manhã inteira em expectativa para o jogo da tarde. De vez em quando anunciavam que iriam passar o jogo ao vivo e fiquei aliviado que iria pelo menos ver esse jogo (eu não tinha conseguido ver nenhum dos jogos anteriores).

Mas acontece que a televisão americana é estruturada de forma que as TVs locais são afiliadas aos canais principais, têm autonomia em decidir o que irão transmitir.  Apesar do canal principal ter anunciado a transmissão do jogo, na hora H, a TV local decidiu transmitir algo que no entender deles daria uma maior audiência: um jogo de golfe!

Eu fiquei desesperado.  Não acreditava no que estava acontecendo. Corri para o meu rádio de banda larga, onde às vezes eu conseguia pegar transmissões internacionais, incluindo do Brasil. Lembre-se que nesta época não havia internet, e ligações para o Brasil eram caríssimas.  Eu consegui pegar uma transmissão muito fraca do Brasil, e algumas outras transmissões em Espanhol.  Não dava para entender exatamente o que estava acontecendo.  Eu tive a impressão de que as coisas não estavam indo bem para o Brasil. Pensei ter ouvido até que o Zico tinha perdido pênalti.  Obviamente eu não estava ouvindo bem, porque para um flamenguista como eu, isso simplesmente não era possível.

Hoje eu acho que Deus tinha um plano para mim nesse dia.  Ele não queria que eu vivenciasse aquele momento tão devastador para quem ama o futebol.  Dizem que o Zico realmente perdeu um pênalti e o Sócrates também.  Como eu não vi, prefiro não acreditar…

Hoje em dia, com acesso à internet, e à TV Globo Internacional, nós brasileiros podemos vivenciar a Copa do Mundo nos Estados Unidos com tranqüilidade.  Mas bom mesmo é estar no Brasil para ver a Copa do Mundo.  Estarei lá depois da primeira fase, e espero poder comemorar a conquista do Hexa pertinho de meus compatriotas.

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2 Comentários em "Como é Vivenciar a Copa do Mundo nos Estados Unidos"

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Felipe
Visitante

Olá, gostaria de saber se vocês sabem qual estado americano a pratica do nosso futebol é mais comum, pois estou querendo fazer intercambio e nao queria deixar de praticar nosso esporte e quem sabe poder jogar em algum time, que certamente é bem mais facil que aqui.

se puder, responda esse post no meu email acima. vlw

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