A poucos dias da maior celebração do futebol americano, o football, na terra do Tio Sam, o aclamado Super Bowl é assunto de capa de qualquer edição online dos jornais no país. Nem mesmo a corrida presidencial ou o pânico mundial causado pelo zika vírus nas últimas semanas parecem reduzir o interesse dos americanos sobre os preparativos da final esportiva, que neste ano chega à sua 50a edição.

Mais por curiosidade do que por gosto pelo futebol americano, admito que, hora ou outra, também acabo clicando nas matérias sobre o super evento. Aliás, tenho pouquíssima familiaridade com o football – como a maioria dos brasileiros. E, indo além na sinceridade, ainda não consegui ver muita graça no esporte que é febre pelas bandas de cá. Meu coração acelera mesmo é quando vejo um passe lindo na grande área, uma cabeçada a gol e a bola balançando a rede.

O fato é que, goste ou não de futebol, é quase impossível ficar totalmente por fora deste universo quando se mora nos EUA. Além disso, a partida que marca o desfecho do campeonato que começa cinco meses antes é, inegavelmente, um grande espetáculo. Artistas do porte de Madonna, Michael Jackson, U2, Beyoncé e Rolling Stones estão na lista dos que já se apresentaram no Super Bowl. Para este ano está programado um show da banda Coldplay, entre outras atrações.

Tudo relacionado ao Super Bowl está ligado a números estratosféricos. A começar pelas estrelas em campo. Considerado o melhor jogador de 2015, J.J. Watts, ponta defensivo do Houston Texas, tem um contrato de seis anos com seu time no valor de nada menos do que US$ 100 milhões (se bem que, ainda assim, fatura menos do que o atacante argentino Messi que ganha US$ 50 milhões por ano do Barcelona). O lançador do Patriots de New England Tom Brady – mais conhecido no Brasil como “marido da Gisele Bünchen” – também está entre os mais bem pagos da Liga Nacional de Futebol (NFL), com um salário anual de US$ 9 milhões.

E não para por aí. Para um anúncio de 30 segundos na hora do jogo, o canal de televisão CBS, que transmitirá a partida, está cobrando neste ano a bagatela de US$ 5 milhões. E, embora o valor estampado nos ingressos da final entre Broncos de Denver contra Panthers da Carolina varie entre US$ 850 e US$ 1,8 mil, grande parte dos fãs acabou conseguindo as entradas por pelo menos o triplo deste preço, já que os bilhetes diretos da NFL são sorteados em pequena quantidade. Na Copa de 2014, no Brasil, os ingressos para a final no Maracanã custavam até R$ 1 mil (cerca de US$ 250 em valores atuais) no site da Fifa, mas se calcula que torcedores mais animados tenham desembolsado até dez vezes mais.

A verdade é que não dá para comparar soccer e football. Assistir a uma partida de futebol americano em um estádio é curtir uma grande festa no melhor American Style, com fogos de artifício, hino nacional, música alta, mascotes saltitantes, cheerleaders, telões interagindo com a torcida. Tendo até a acreditar que, entre os milhares de espectadores nas arquibancadas, boa parte vai mesmo só pela farra.

O futebol americano é um jogo bem mais tático, porém de jogadas bem mais violentas do que o soccer. Não por acaso os jogadores entram em campo com proteções em várias partes do corpo. Nos tempos em que os acessórios não eram obrigatórios, muitos esportistas perdiam a vida em campo. Reportagens antigas falam em pelo menos 45 jogadores de futebol americano mortos entre 1900 e 1905 devido a ferimentos internos, colunas e pescoços quebrados, resultantes de choques violentos durante as partidas.

Em nada lembra o futebol que cresci assistindo pela televisão, o qual não raro era descrito em forma de poesia por algum locutor mais inspirado e que, com uma certa dose de exagero, ressaltava a ginga, a beleza e a criatividade do “futebol arte”.

Mas, para mim, o ponto indiscutível que marca a diferença crucial entre os dois esportes foi escancarada na data escolhida para a realização do Super Bowl neste ano: o maior evento esportivo dos EUA acontecerá em pleno fim de semana de carnaval. Alguém aí consegue imaginar uma heresia dessas no Brasil?

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