No que depender do cenário político nos últimos meses tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, ninguém vai morrer de tédio tão cedo nos dois países. De um lado, o furacão criado pela operação Lava-Jato, escancarando as entranhas de um terrível esquema de corrupção cujos detalhes mirabolantes parecem saídos do roteiro de um filme. De outro, a corrida presidencial americana, especialmente o lado republicano, com episódios que flertam com o mundo da fantasia e que, certamente, alguém alheio aos fatos poderia jurar que não passa de uma grande lorota.

O primeiro ponto novelístico das eleições americanas é a permanência do magnata Donald Trump como favorito à nomeação republicana. Falastrão, politicamente incorreto e um tanto quanto egocêntrico, pouco levado a sério no começo por observadores do cenário politico nos EUA, Trump contrariou expectativas e manteve-se na dianteira ao longo de todo o período de primárias e caucasos. Ele perdeu em alguns estados, como Texas, Alasca e Oklahoma; na soma geral, no entanto, o bilionário continua levando a melhor.

O inimaginável desempenho de Trump frente aos 12 concorrentes levou o ex-governador da Flórida Jeb Bush – cuja candidatura republicana era praticamente certa um ano atrás – a jogar a toalha e abandonar a corrida apenas 20 dias após o início das primárias. O establishment republicano ficou de cabelo em pé, e sem saber o que fazer diante do fenômeno Trump.

O curioso é que – e aí vem o segundo ponto para roteirista nenhum colocar defeito – o bilionário assegurou a liderança entre os republicanos fazendo exatamente o contrário do que reza a cartilha do bom candidato: dando declarações estapafúrdias sobre temas variados. Ele prometeu fechar a entrada dos Estados Unidos para muçulmanos, foi pouco veemente na rejeição ao apoio do grupo extremista Ku Klux Klan e andou fazendo com que seus seguidores prometessem fidelidade com um gesto que lembra o cumprimento nazista.

O ex-apresentador do programa “O Aprendiz” ainda declarou que os mexicanos (maior população de estrangeiros nos EUA) que chegam às terras americanas são “estupradores” e criminosos, e prometeu construir um muro na fronteira com o México e mandar a conta para o governo vizinho.

Não bastasse, comprou briga com a apresentadora de TV Megyn Kelly após ter sido questionado por declarações chamando de “cadelas”, “preguiçosas” e “animais nojentos” mulheres das quais ele não gostava. Em resposta, Trump disse que Megyn tinha sangue saindo pelos olhos e “por outras partes” ao colocá-lo contra a parede. Meses depois, ele recusou-se a participar de outro debate moderado pela jornalista e, pelo Twitter, chamou-a de bimbo (algo como “atraente e burra”).

Os mais acalorados e surreais bate-bocas, no entanto, foram protagonizados por Trump e os colegas de partido. Os debates republicanos caíram a um nível dificilmente visto em brigas de escola. Ao trocar farpas com os correligionários via imprensa, Trump chamou o senador Ted Cruz de “mentiroso” e “bebezinho fraco”, e questionou a nacionalidade do adversário, afirmando que ele teria nascido no Canadá. Sobre Marco Rubio, o magnata disse tratar-se de um “frouxo”.

E aqui, neste terceiro ponto dramatúrgico das eleições americanas, justiça seja feita: Trump não foi o único deixar a audiência escandalizada. Numa tentativa desesperada de ganhar atenção da mídia, Rubio fez, em um de seus comícios, uma insinuação sobre o tamanho da mão de Trump (deixando no ar uma referência sobre o tamanho do órgão sexual do bilionário) e deu a entender que Trump teria ficado “com as calças molhadas” durante um debate.

A campanha de Ted Cruz não jogou muito mais limpo. Num momento em que o senador pelo Texas disputava com o colega da Flórida o segundo lugar na corrida republicana, uma fotomontagem mostrando Rubio e o presidente Barack Obama apertando as mãos viralizou na internet. Acusações recaíram sobre Cruz, que ainda lançou bizarras inserções na TV, com uma na qual crianças brincam com um boneco de Trump.

A grande expectativa dos americanos agora é sobre o que vai acontecer nos próximos capítulos dessa trama. E, obviamente, seu esperado final: quem será o próximo presidente dos Estados Unidos?

Deixe um comentário

Seja o Primeiro a Comentar!

avatar
wpDiscuz