Fonte:  Comunidade News

Para muitos, benefício financeiro de ter parentes fora dura somente nos três primeiros anos.

Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos Sobre Desenvolvimento Regional (NEDER) da Universidade Vale do Rio Doce (Univale) em Governador Valadares (MG), revela as consequências da emigração na vida afetiva da família. Intitulado “A afetividade na vida do imigrante”, o estudo diz que os ganhos econômicos superam as perdas afetivas, mas somente nos primeiros anos de separação dos familiares.

A pesquisa foi feita pelo estudante de psicologia José Soares, 22, sob a orientação da professora Sueli Siqueira, coordenadora do NEDER. O próprio estudante é filho de valadarenses que estão nos Estados Unidos, morando em Boston (MA).

José contou ao Comunidade News que, justamente por ser filho de imigrantes, começou a perceber questões que mereciam um estudo, aliado ao fato de que a família ocupa um espaço importante na sociedade. O estudante tinha de 12 para 13 anos quando os pais saíram do Brasil, e até hoje não os reencontrou.

Através das respostas dos questionários, José notou que a comunicação via telefone ou internet não era suficiente para os familiares que ficaram para trás. “Faltava algo mais. Nada preenchia a presença, o calor, o toque”, disse. De acordo com o estudante, os pais que ficam no Brasil sentem muito mais a ausência dos filhos que estão aqui. “O jovem não cria o desejo de voltar de imediato, ou saiu do Brasil com o plano de ficar cinco anos, mas acaba gostando do estilo dos Estados Unidos, e prolonga o seu retorno. Os pais sofrem com isso”.

Um dado muito interessante, segundo José, é que o distanciamento afetivo começa a ser sentido a partir de três anos. Segundo ele, 50% dos familiares disseram que a vida econômica melhorou significativamente. “Mas a partir destes três anos, começam a perceber que vem vários outros déficits, inclusive emocionais, que são prejudiciais. Acabam preferindo a presença do cônjuge, do filho, do pai, do que todo esse luxo que ele acabou tendo, em virtude da migração do familiar”.

Não são raros os casos de imigrantes brasileiros que vieram aos Estados Unidos com o único objetivo de melhorar a vida material dos familiares no Brasil. São pais que querem dar do bom e do melhor para os filhos, e filhos que ajudam a sustentar os pais.

A pesquisa foi feita em 2008, pouco antes de estourar a crise econômica nos Estados Unidos, abrangendo Alpercata e Valadares. O estudo se ramificou também para a questão da educação na vida do filho do imigrante. Segundo José, há casos de desinteresse pelos estudos. “Ele [o filho] pensa ‘meu pai está nos Estados Unidos, eu também vou imigrar. Porque tenho que estudar?’”. De acordo com José, estes são geralmente filhos com a ausência da figura paterna.

Ao atender crianças cujo pai está nos Estados Unidos, José constatou que o fato do pai estar aqui, não condiciona o comportamento da criança para ter algum problema emocional. “Mas se tem a figura que cumpre esta função, consegue dar este suporte. O que geralmente acontece é que a figura que fica aqui para cumprir esta função não dá conta”.

O primeiro boom de brasileiros para os Estados Unidos ocorreu na década de 80. Governador Valadares tornou-se a maior ‘exportadora’ de imigrantes para a terra das oportunidades. Segundo a pesquisadora Sueli Siqueira, os valadarenses adquiriram a imagem de que os Estados Unidos eram um eldorado na década de 40, quando a cidade mineira foi explorada por mineradores norte-americanos. Foi uma época de grande prosperidade para o Vale do Rio Doce.

O Que os Dados da Pesquisa Revelam

No estudo, José Soares conheceu dois perfis de imigrantes de cidades dos arredores de Valadares: o que se esquivou e o que fugiu. Quem se esquivou, segundo ele, tinha uma certa estabilidade financeira, mas não quis arriscar ficar numa possível crise econômica. Os que fugiram, já tinham uma dificuldade econômica instalada nas vidas.

Um gráfico do estudante aponta que 17% dos entrevistados disseram que a vida econômica não melhorou. “Foram pessoas que não dependiam da pessoa que migrou”. Trinta e três por cento dos entrevistados disseram que a vida econômica melhorou razoavelmente.

Outro gráfico mostra que 83% dos entrevistados disseram que a vida afetiva foi comprometida, após a imigração do familiar. “No distanciamento, na frieza do relacionamento”. Os dados referem-se também a pessoas que voltaram para o Brasil. Um imigrante chegou a trocar os móveis da casa, porque achava que estavam velhos, e outro pedia licença para usar a geladeira, pois tinha perdido o sentimento de que pertencia à família.

O estudo foi publicado na Universidade Católica de Ipatinga e nos Anais de Simpósio de Pesquisa da Univale.

O depoimento de uma jovem deixou José impressionado. “O que mais me marcou no discurso dela, é que ela dizia que não sabe o que é amor de mãe”. Quando tinha um ano de idade, a mãe da jovem veio para os Estados Unidos. As duas nunca mais se viram. Neste caso, segundo José, a mãe deixou de ser significante mas passou a ser importante, pois paga a faculdade da filha e arca com as despesas dela. “Mas significante para ela são os avós”.

Outro dado interessante é a forma como os familiares veem o parente que está nos Estados Unidos. Segundo José, 51% disseram que viam este familiar como uma pessoa amorosa, 33% viam a pessoa como distante, e 8% viam a pessoa como estranha, e como alguém que se preocupa com a vida econômica da família.

Depois da imigração do familiar, 43% passaram a ver a imigração como uma das alternativas para ganhar dinheiro, ao passo que 33% disseram que imigrar é uma péssima escolha. Dezessete por cento disseram que nunca pensaram nisso, e 8% consideram a imigração como a única forma de melhorar de vida.

Alguns familiares disseram que preferem comer arroz e feijão mas em companhia do parente que migrou, a comer lasanha e picanha mas ter a pessoa longe. Para José, a pesquisa pode causar uma reflexão sobre o que a imigração causa nas famílias.

Segundo notícia publicada no O Estado de São Paulo, em novembro de 2009, ex-moradores dos Estados Unidos e outros países estão procurando o Vale do Rio Doce. Como o suíço Hans Rüssi, na época com 48 anos de idade. Apesar de todas as dificuldades para negociar no Brasil, disse que não se arrepende. “Tenho uma paz e uma felicidade que não tinha lá”, declarou ele, que trabalha em plantio de legumes e frutas sem agrotóxicos, em um sítio a 30 km de Governador Valadares.

Reproduzido com permissão e em parceria com a Comunidade News.  Leia outros artigos da Comunidade News.

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