Foto: David Awokoya / Pexels
Você promete “te dar um call” antes de “dropar” o endereço no grupo da família. No mesmo parágrafo, troca de idioma três vezes sem perceber. Se isso soa familiar, bem-vindo ao portinglês — a língua informal que quase todo brasileiro nos EUA acaba falando, mesmo sem querer.
De onde vem o portinglês
O fenômeno é tão reconhecido que até tem nome em inglês: “Porglish” (também grafado Portinglish ou Portuglish), usado para descrever a mistura de português e inglês entre falantes bilíngues — e, nos Estados Unidos, o termo está associado sobretudo à comunidade brasileira.
Não é força de expressão nem modismo recente. Há anos circulam listas informais de palavras “aportuguesadas” criadas por brasileiros que vivem fora, boa parte delas ligada ao dia a dia prático da imigração: “printar” (imprimir), “deletar” (apagar), “dropar” (deixar alguém em algum lugar, do inglês “to drop”) e “parkear” (estacionar, de “to park”) são alguns dos exemplos mais citados nesse tipo de dicionário caseiro da diáspora.
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Por que a mistura acontece na vida real
Não é preguiça, nem “esquecer o português”. Quem vive rodeado de inglês o dia inteiro — no trabalho, na escola dos filhos, no consultório médico, no aplicativo do banco — naturalmente absorve as palavras que usa com mais frequência naquele idioma. Depois, quando liga pra mãe ou manda mensagem pro grupo de brasileiros, essas palavras vêm junto, porque foi nelas que a situação aconteceu primeiro. Termos de trabalho, de burocracia e de tecnologia são os que mais “grudam”, porque muitas vezes a pessoa aprendeu aquele processo específico — marcar consulta, fazer um “paperwork”, pedir um “refund” — já em inglês, nos Estados Unidos, sem nunca ter precisado do equivalente em português.
Não é desleixo, é vida bilíngue
Existe sempre aquele comentário de quem ainda está no Brasil: “nossa, esqueceu o português todo”. Mas misturar dois idiomas não é sinal de que nenhum dos dois foi bem aprendido — é o contrário. Alternar entre línguas no meio da frase, algo que linguistas chamam de code-switching, é uma habilidade de quem domina mais de um sistema e transita entre eles conforme a situação pede. Quem vive em portinglês não perdeu o português: ganhou um terceiro jeito de se comunicar, que só faz sentido para quem também vive essa travessia todo santo dia.
Um jeito de pertencer aos dois lugares
No fim das contas, o portinglês é menos sobre gramática e mais sobre identidade. É a prova viva de uma vida dividida entre dois países, duas culturas e dois jeitos de resolver a vida — e que, em vez de escolher um lado, decidiu caber nos dois. Da próxima vez que sair um “vou te mandar o endereço no chat” ou um “deixa eu checkar”, não tem problema nenhum: é só o som de alguém que aprendeu a viver em dois idiomas ao mesmo tempo.