Numa sexta-feira qualquer em Nova York, Boston ou São Francisco, um grupo de brasileiros — e também muita gente que nunca pisou no Brasil — se encontra numa pista de dança para um xote, um baião, uma dança de salão a dois. É o forró, ritmo nascido no Nordeste, que virou um dos pontos de encontro mais constantes da comunidade brasileira nos Estados Unidos.
Foto: marquino rocha / Pexels
Um ritmo que atravessa fronteiras
Forró é dança de par, de conversa curta no ouvido, de giro e sincronia. Para quem cresceu ouvindo Luiz Gonzaga na cozinha da casa dos pais ou dançando em festa de São João, a música funciona como atalho direto para a infância. Mas o que começou como nostalgia de quem mora fora acabou virando também porta de entrada: muita gente que não é brasileira aprende os passos, frequenta as aulas e se apaixona pelo ritmo — e, de quebra, pelo Brasil.
De uma boate no East Village a festivais pelo país
Nova York tem hoje a cena de forró mais estruturada do país. Tudo começou em 2002, quando um grupo de brasileiros radicados na cidade criou o Forró in the Dark, um coletivo que nasceu de rodas de música na boate Nublu, no East Village, e acabou conquistando uma residência semanal fixa no lugar. Duas décadas depois, a cidade mantém aulas e bailes de forró praticamente toda semana, organizados por projetos como o Forró New York — e desde 2019 ganhou até um festival próprio, o Forró New York Weekend, que reúne professores e músicos do Brasil, dos EUA e da Europa.
A cena não para em Nova York. Boston, a Flórida e cidades da Costa Oeste, como San Francisco, Los Angeles e San Diego, têm seus próprios grupos e bailes recorrentes, geralmente organizados por voluntários da própria comunidade: alguém que ensina, alguém que toca sanfona ou zabumba, alguém que cuida da trilha sonora, alguém que abre a casa ou negocia o salão.
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Por que dançar forró vira quase terapia
Quem frequenta esses bailes costuma descrever a mesma sensação: por duas ou três horas, ninguém está sozinho. O forró exige contato — mão na mão, braço no ombro, olho no olho — numa rotina americana em que o toque físico fora de casa é raro. Para brasileiros recém-chegados, é também um dos poucos espaços onde se pode falar português sem pensar na palavra em inglês, rir alto sem se preocupar em ser “demais” e sentir que aquele jeito de ser, que em outros ambientes precisa ser contido, ali é simplesmente bem-vindo.
Tem também o efeito colateral de virar rede de apoio: é no intervalo entre uma música e outra que se descobre uma vaga de aluguel, uma indicação de dentista brasileiro, uma dica de documento. O salão de forró, como o churrasco de domingo ou a pelada no parque, acaba funcionando como extensão da família que ficou longe.
Como encontrar um grupo perto de você
- Procure “forró” ou “Brazilian dance” em grupos de Meetup e no Facebook da sua cidade — a maioria dos encontros tem página própria.
- A maior parte dos bailes abre com uma aula rápida para quem nunca dançou; não é preciso saber nada antes de aparecer.
- Em cidades sem cena fixa, procure centros culturais brasileiros, igrejas com comunidade brasileira ou festivais locais — muitas vezes é ali que um grupo de forró se forma.
- Se não houver nada na sua região ainda, essa pode ser a abertura para começar: basta uma sala, uma playlist e a vontade de dançar.
Não é preciso ter nascido no Nordeste, nem saber todos os passos, para sentir que aquele salão é um pedaço do Brasil reconstruído a 10 mil quilômetros de distância — com sanfona, suor e a certeza de que, por ali, a saudade também sabe dançar.