Foto: Mikael Blomkvist / Pexels

“Lá você vive, aqui você trabalha.” A frase resume, numa comparação só, o que boa parte dos brasileiros sente nos primeiros anos nos Estados Unidos: o dinheiro rende mais, as contas se pagam, mas o tempo para viver parece ter encolhido.

A frase não é só um ditado popular. Ela dá título a um estudo acadêmico publicado em 2019 na revista científica International Journal of Environmental Research and Public Health, que ouviu imigrantes brasileiros e dominicanos em Massachusetts sobre trabalho e saúde nos EUA. A pesquisa reuniu cinco grupos de conversa com 48 participantes brasileiros, organizados em parceria com o Brazilian Worker Center, entidade que atende trabalhadores brasileiros na região de Boston.

O que os brasileiros contaram na pesquisa

Segundo o estudo, o grupo brasileiro voltava sempre aos mesmos dois temas: a saúde física, desgastada pela rotina pesada, e o “sonho americano” — a ideia de que o sacrifício no trabalho vale a pena porque abre portas que não existiriam no Brasil. A conclusão dos pesquisadores descreve esse grupo como sobrecarregado, mas esperançoso: trabalham muito mais do que trabalhavam no Brasil, sentem o corpo cobrar a conta, e ainda assim mantêm a expectativa de que o esforço vai compensar.

Outro ponto que aparece em pesquisas sobre imigrantes brasileiros empregados em limpeza, construção civil, babá e jardinagem é a sensação dupla: reclamam da carga de trabalho, mas relatam se sentir mais incluídos socialmente — muito pela via do consumo — e, em alguns casos, mais respeitados no trabalho do que se sentiam no Brasil. Para parte desse grupo, isso pesa na hora de decidir se volta ou não para o Brasil.

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A conta das férias: 30 dias contra nenhum

Uma diferença concreta ajuda a explicar esse estranhamento: férias. No Brasil, a CLT garante 30 dias de férias remuneradas por ano a todo trabalhador com carteira assinada — um direito tão estabelecido que boa parte dos brasileiros nem usa tudo: levantamentos sobre o tema mostram que só cerca de um terço dos trabalhadores tira os 30 dias completos a que têm direito.

Nos Estados Unidos, não existe lei federal que obrigue nenhuma empresa a oferecer um único dia de férias remuneradas. O que existe é política de cada empregador — e, segundo levantamentos do setor de benefícios trabalhistas, a prática mais comum no setor privado americano fica bem abaixo do padrão brasileiro, sem nenhuma garantia legal por trás. Ou seja: o brasileiro que reclamava de não tirar as próprias férias no Brasil chega aos EUA e descobre que o patamar de comparação mudou de figura.

O que fazer com essa diferença

Não dá para recriar a CLT dentro de uma empresa americana, mas alguns ajustes práticos ajudam a atravessar esse choque sem se afundar nele:

  • Leia seu contrato e o manual do funcionário (employee handbook). PTO (paid time off), dias de doença e feriados variam muito de empresa para empresa — e às vezes de estado para estado. Saber exatamente quantos dias você tem evita surpresa.
  • Use os dias que tem. A mesma cultura que faz o brasileiro deixar férias na gaveta no Brasil se repete aqui, só que com uma folga bem menor para desperdiçar.
  • Separe “sobrevivência” de “sonho americano”. Vale perguntar, de tempos em tempos, se o sacrifício atual está te aproximando de um objetivo real — mudar de emprego, abrir um negócio, trazer a família — ou se virou rotina sem destino.
  • Busque outros brasileiros no mesmo barco. Centros de trabalhadores, igrejas e grupos comunitários (como os que participaram da pesquisa em Massachusetts) ajudam a trocar informação sobre direitos trabalhistas e a não enfrentar sozinho o desgaste físico do trabalho pesado.

Fontes

  • Brinkerhoff et al., “‘There You Enjoy Life, Here You Work’: Brazilian and Dominican Immigrants’ Views on Work and Health in the U.S.”, International Journal of Environmental Research and Public Health, 2019 (resumo e metodologia consultados via indexadores acadêmicos).
  • CLT — Consolidação das Leis do Trabalho, artigo 130 (direito a 30 dias de férias remuneradas no Brasil).