Em qualquer outro dia, são só 90 minutos de bola rolando. Mas quando é o Brasil jogando, o jogo muda de endereço: sai da sala de casa e vai para o bar, para a casa do amigo, para o grupo de WhatsApp que começa a esquentar horas antes da bola rolar. Para quem mora nos Estados Unidos, torcer pela Seleção — ou simplesmente acompanhar o futebol brasileiro — é menos sobre o placar e mais sobre encontrar gente que entende por que aquilo importa tanto.
Do sofá para o bar
Em Nova York, o Beija Flor, em Long Island City, é descrito como uma espécie de segundo lar para torcedores brasileiros há anos: tela grande, equipe que fala português e transmissão dos jogos do futebol brasileiro às quartas e aos domingos. Em Miami, durante a Copa do Mundo, bares e restaurantes ficaram lotados de brasileiros que contam se sentir em casa ali — a cidade tem uma das maiores comunidades brasileiras dos EUA, ao lado de Nova York, Massachusetts e Nova Jersey.
Também existem grupos organizados só para isso: o MVA (Movimento Verde e Amarelo) promove festas em bares americanos nos dias de jogo do Brasil, com samba, pagode e até rock, reunindo a colônia brasileira em cidades que vão de polos grandes a lugares menores, como College Station, no Texas. Não é exagero dizer que, para parte da comunidade, a programação de jogos do Brasil é tão importante quanto qualquer feriado.
O fuso horário que ninguém escolhe
O problema é a hora. Durante a Copa do Mundo deste ano, sediada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, boa parte das partidas começou entre 22h30 e 1h no horário de Brasília — pelo menos 17 jogos caíram de madrugada para quem acompanhava do fuso brasileiro, e o inverso vale para quem está nos EUA tentando ver o jogo no fuso local, que às vezes cai no meio da tarde de um dia de trabalho, às vezes na madrugada de verdade.
Em Astoria, no Queens, virou história de torcedor: cerca de 20 brasileiros esperaram quase oito minutos, no início de uma partida do Brasil, para que o bar trocasse a TV — que estava sintonizada em golfe — para o jogo. Só depois de muita insistência dos clientes é que a transmissão certa entrou no ar. Quem vai a um bar não-brasileiro torcer pela Seleção já sabe: vale confirmar com antecedência se o lugar vai mesmo passar o jogo.
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Mais que bola rolando
O que esses encontros têm em comum não é exatamente o futebol — é o motivo para estar junto. A camisa amarela, o grito no gol, a cerveja gelada e o abraço de quem também está longe de casa fazem o jogo valer mais do que os 90 minutos. Para muita gente, a Seleção nos EUA cumpre o papel que cumpria no Brasil: colocar os parentes, vizinhos e desconhecidos da mesma cidade grande na mesma sala, ainda que a sala agora seja um bar de esquina em outro país.
Não importa se o resultado é vitória, empate ou aquela decepção que todo brasileiro já sentiu: no dia do jogo, por algumas horas, a saudade perde um pouco da força. E para quem está chegando agora aos EUA, esse pode ser um dos jeitos mais fáceis de encontrar comunidade — basta descobrir onde a colônia local se reúne e aparecer na hora certa, mesmo que essa hora seja às 4 da manhã.