Todo brasileiro que já preencheu um formulário nos Estados Unidos conhece a pergunta: “Hispanic or Latino origin? Yes or No.” E todo brasileiro já travou por um segundo antes de responder. Afinal, somos ou não somos latinos?

A dúvida não é boba — e nem é só sua. Ela vem de uma contradição real na forma como o governo americano define quem é “hispânico”, e ganha um novo capítulo a partir de 15 de setembro, quando começa o Mês da Herança Hispânica nos EUA (Hispanic Heritage Month), que vai até 15 de outubro.

O que diz a lei americana

A categoria “hispânico” não nasceu para descrever a América Latina como um todo. Ela vem de uma lei de 1976, que pediu ao governo dados sobre “americanos de origem espanhola” — pessoas ligadas a países de língua espanhola, como México, Cuba, Porto Rico e o restante da América Central e do Sul. Por definição, essa categoria exclui explicitamente Portugal e o Brasil, justamente por causa do idioma.

Na prática, isso significa que, nos formulários oficiais do Censo americano, quem se declara “brasileiro” costuma ser reclassificado internamente como não hispânico — no mesmo grupo de pessoas de origem em Belize, Filipinas ou Portugal, segundo análise do Pew Research Center.

O erro do Censo que revelou algo maior

Em 2020, uma falha no processamento de dados do American Community Survey deixou brasileiros (e alguns outros grupos) de fora desse recodificação automática por um ano. O resultado foi revelador: cerca de 416 mil brasileiros nos EUA — perto de dois terços da população brasileira registrada no Censo — tinham marcado “sim” para “hispânico ou latino” quando a pergunta chegou até eles sem filtro.

Ou seja: mesmo excluídos pela definição oficial, a maioria dos brasileiros consultados diretamente se identificou com o termo.

Hispânico não é a mesma coisa que latino

Parte da confusão vem de dois termos que muita gente usa como sinônimos, mas não são:

  • Hispânico se refere a quem tem origem em países de língua espanhola — incluindo a própria Espanha. Por essa definição, o Brasil fica de fora.
  • Latino se refere a quem tem origem na América Latina, independentemente do idioma — o que, geograficamente, inclui o Brasil (mas deixa a Espanha de fora).

É por isso que um brasileiro pode, com razão, dizer “não sou hispânico” e, na frase seguinte, “sou latino” — as duas coisas fazem sentido dependendo da definição usada. E também por isso que o próprio Mês da Herança Hispânica é chamado, cada vez mais, de “Hispanic and Latino Heritage Month” em muitas instituições, justamente para tentar dar conta dessa diferença.

Por que isso importa na prática

Além da questão de pertencimento, a classificação tem efeitos concretos no dia a dia:

  • Bolsas de estudo, programas de mentoria e editais voltados a “estudantes hispânicos ou latinos” podem ou não considerar brasileiros elegíveis — vale sempre checar o regulamento específico em vez de presumir.
  • Em formulários de emprego, escola ou censo, o brasileiro pode escolher se identifica como “hispânico ou latino”, como “outra raça” com o campo “brasileiro” escrito à mão, ou de outras formas — não existe resposta errada, só a que reflete como você se vê.
  • Redes e associações latinas locais (câmaras de comércio, grupos comunitários, eventos culturais) frequentemente recebem brasileiros de braços abertos, mesmo com a distinção oficial — vale se informar em vez de se autoexcluir.

No fim, a resposta é sua

Não existe um órgão que vai bater na sua porta para corrigir a caixinha que você marcou. A classificação oficial é uma ferramenta estatística, criada para outro propósito, em outra década. Já a identidade — essa é sua, e pode muito bem ser as duas coisas ao mesmo tempo: brasileiro até a raiz, e latino por geografia e afeto, ou nenhuma das duas, se for assim que você se sente mais representado.

Nas próximas semanas, enquanto o país celebra o Mês da Herança Hispânica, vale a pena observar como sua comunidade local participa — ou não — dessas celebrações, e decidir com mais informação onde você quer estar.

Fontes

Foto: Joel Santos / Pexels