Tem um momento que quase todo brasileiro nos EUA reconhece: alguém pergunta “where are you from?”, você responde “Brazil” e a conversa segue por um caminho que nunca passaria pela sua cabeça no Brasil — alguém pergunta se você fala espanhol, ou te enquadra automaticamente como “Hispanic” num formulário. Não é só isso: é também a primeira vez em que “ser brasileiro” deixa de ser um dado óbvio da vida e passa a ser algo que precisa ser explicado, defendido ou traduzido o dia inteiro.

Foto: Madjid Atmania / Pexels

A primeira vez em que você não é “daqui”

Pesquisas sobre a diáspora brasileira, como os estudos da antropóloga americana Maxine Margolis sobre brasileiros nos EUA, apontam algo parecido: para muitos brasileiros, essa é a primeira vez na vida em que são vistos como parte de uma minoria étnica — e boa parte da adaptação inclui aprender a se diferenciar de categorias que os Estados Unidos tentam encaixar neles, como a de “hispânico”, que não corresponde à própria história.

Virar estrangeiro em dois lugares ao mesmo tempo

O estranho é que esse processo não para na fronteira dos EUA. Com o tempo, o Brasil também muda de lugar na cabeça de quem foi embora. A gíria que você usava já não é a mesma. Os preços te assustam. Um primo comenta “você mudou o jeito de falar” sem querer ofender, mas a frase fica martelando. Você volta de férias e, em vez do alívio de “estar em casa”, sente um desencontro pequeno e constante — como se o Brasil tivesse continuado a viagem sem você.

Um estudo publicado na revista acadêmica Travessia, que reúne pesquisas sobre migração, encontrou que 38,3% dos brasileiros entrevistados nos Estados Unidos afirmam não ter mais a intenção de voltar a morar no Brasil. O número ajuda a entender por que esse desencontro não é passageiro para boa parte da comunidade: quem decidiu ficar precisa, de algum jeito, fazer as pazes com dois lugares ao mesmo tempo, em vez de esperar que um dos dois volte a ser “só casa”.

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O limbo não é um defeito, é uma fase

Vale separar essa sensação de duas outras parecidas, mas diferentes. Não é a saudade pura da comida, da praia ou da família — isso tem nome e tem solução parcial (uma ligação, uma viagem, um prato de comida encontrado num mercadinho brasileiro). E não é a “síndrome do retorno”, o choque de quem decide se mudar de volta para o Brasil depois de anos fora. É algo que acontece enquanto você continua vivendo nos EUA, sem planos imediatos de voltar: a sensação de que você fala duas línguas, mas não é 100% fluente em nenhuma cultura; que defende o Brasil quando está nos EUA e defende os EUA quando está no Brasil; que criou hábitos, piadas e referências que só fazem sentido para quem também atravessou essa linha.

  • Você se pega comparando preço de tudo em dólar e em real, nas duas direções.
  • Entende referências de novela brasileira e de sitcom americano, mas às vezes nenhuma das duas completamente.
  • Tem uma lista mental de “coisas que só quem morou fora entende” — e ela cresce todo ano.

Onde é “casa”, então?

Para a maioria de quem vive esse limbo, a resposta que funciona na prática não é escolher um lado. É aceitar que “casa” virou uma palavra composta: um pouco do apartamento nos EUA, um pouco da casa dos pais no Brasil, um pouco do grupo de brasileiros que você criou aqui para recriar, mesmo que torto, um pedaço do que ficou lá. Isso não é se contentar com menos — pesquisadores que estudam identidade de imigrantes descrevem esse pertencimento duplo como algo que se reconfigura com o tempo, e não como uma perda definitiva de lugar. Com os anos, a maioria para de tentar decidir “quem eu sou mesmo” e aceita que pode ser as duas coisas, em proporções que mudam de fase para fase da vida.

Fontes: estudos sobre a diáspora brasileira nos EUA da antropóloga Maxine Margolis; artigo acadêmico publicado na revista Travessia sobre intenção de retorno de brasileiros no exterior.