Chegar aos Estados Unidos para abrir um negócio quase nunca significa chegar com uma rede pronta. Uma pesquisa da aceleradora Endeavor em parceria com a Jumpstart, que entrevistou cerca de 60 brasileiros à frente de empresas em solo americano, mostra que metade leva mais de seis meses só para formar uma rede social local — e um em cada cinco diz ter feito tudo praticamente sozinho.
Mesmo assim, o número de negócios liderados por brasileiros nos EUA continua crescendo, com destaque para empreendimentos tocados por mulheres. Duas histórias reais ajudam a entender como isso acontece na prática — e o que pode ajudar quem está pensando em dar o primeiro passo.
De doceira a exportadora: a história da TinyB
Renata Stoica é paulista, formada em enfermagem, e passou anos trabalhando na área da saúde no Brasil. Em 2013, aos 44 anos, mudou-se para os Estados Unidos para acompanhar o marido americano — e levou na bagagem uma receita de brigadeiro que aprendeu ajudando a mãe a vender doces em Itapeva, no interior de São Paulo.
O marido avisou: o brigadeiro brasileiro, do jeito tradicional, seria doce demais para o paladar americano. Em vez de desistir, Renata passou a testar uma versão menos açucarada até criar um produto que agradasse aos dois públicos. Em 2014, nasceu oficialmente a TinyB, hoje baseada no Vale do Silício. Segundo a Forbes Brasil, a empresa faturou R$ 25 milhões nos últimos dois anos e já exporta brigadeiros para mais de 52 países.
De salão de beleza a rede de apoio: a história da Aegisderma
Cleo Pillon nasceu na zona rural do Maranhão e, antes de empreender, trabalhou como faxineira, recepcionista e vendedora. Formou-se em estética em São Paulo e tentou abrir negócio próprio ainda no Brasil. Foi nos Estados Unidos, já aos 40 e poucos anos, que decidiu investir de novo: em 2023, fundou a Aegisderma, marca de cosméticos com foco em nanotecnologia e ingredientes naturais, hoje baseada em Nova York.
Pillon não parou no próprio negócio. Ela também criou a Salto Alto Connection, iniciativa voltada a apoiar mulheres imigrantes em Nova York com orientação sobre finanças, luto migratório e transição de carreira — exatamente o tipo de rede que, segundo a pesquisa da Endeavor, costuma faltar a quem chega.
O que os dados mostram sobre empreender fora do Brasil
- Segundo o Ministério das Relações Exteriores, entre os mais de 20 mil micro e pequenos empreendedores brasileiros no exterior, 45% estão nos Estados Unidos — cerca de 9 mil negócios.
- Os setores mais comuns entre eles vão de alimentação a tecnologia e turismo, com forte presença na Flórida, além do polo de tecnologia em Silicon Valley e do eixo de serviços em Miami.
- Na pesquisa da Endeavor com Jumpstart, quando perguntados quem os ajudou na chegada, 72% dos empreendedores citaram a própria comunidade brasileira local — à frente de amigos já radicados no país (40%), mentores e investidores (24%) e aceleradoras (16%).
- Entre os negócios liderados por mulheres, os setores mais comuns são salões de beleza e estética, confecção e vestuário, buffet e comida preparada.
Se você está pensando em empreender
As duas histórias acima têm um ponto em comum: nenhuma das duas empreendedoras começou com uma rede pronta, mas ambas encontraram — ou criaram — comunidade pelo caminho. Alguns caminhos práticos para quem está nessa fase:
- Procure câmaras de comércio brasileiras e grupos de empreendedores brasileiros na sua região — muitos organizam encontros de networking abertos.
- Participe de grupos de apoio a mulheres imigrantes empreendedoras, como a Salto Alto Connection, quando fizerem sentido para o seu momento.
- Comece testando o produto ou serviço dentro da própria comunidade brasileira antes de buscar o mercado americano mais amplo — foi o primeiro público de praticamente todo negócio brasileiro de sucesso nos EUA.
- Não subestime o tempo que leva para construir uma rede local: para metade dos empreendedores brasileiros, isso levou mais de seis meses.
Nenhuma das duas chegou aos EUA com um plano de negócios pronto. O que tiveram foi disposição para recomeçar — e, cedo ou tarde, uma comunidade brasileira por perto para se apoiar.
Foto: Vitaly Gariev / Pexels
Fontes
- Forbes Brasil — Brasileira fatura R$ 25 milhões vendendo brigadeiro no Vale do Silício
- Exame — Os empreendedores brasileiros que estão fazendo sucesso nos EUA
- Aegisderma — About Us
- Times Brasil/CNBC — Pesquisa Endeavor: 68% dos empreendedores brasileiros chegam aos EUA sem rede de apoio
- Ministério das Relações Exteriores (via Costa Norte) — Empreendedores brasileiros se destacam nos EUA